O Vício Português do Crédito ao Consumo

O Vício Português do Crédito ao Consumo

O Vício Português do Crédito ao Consumo
Esta polémica faz recordar a história da camponesa e da bilha de leite. Conta-se que uma jovem camponesa levava uma bilha de leite à cabeça e que cogitava vendê-la, comprar ovos e galinhas, chocar os ovos, ter pintainhos, vender os pintainhos e … tropeça e derrama o leite. Nem pinga se aproveitou! Rica imaginação, gorado o negócio, pobrezita outra vez!
Podia bem ser a metáfora da situação do povo português. Não deitámos contas à vida, ostentámos o que não era nosso, almejámos um lucro salomónico, ao atravessar areias movediças.
Durante muito tempo, estivemos fechados sobre nós próprios, qual tartaruga tímida e friorenta, escondida na sua carapaça. É certo que trabalhávamos e muito! Na província e em Lisboa (partindo do pressuposto de que Portugal era Lisboa e o resto era paisagem). Conseguiam-se umas “bordas” que depositávamos debaixo do colchão!
Quem se atreverá a dizer que o emigrante português não trabalhava, não dava o corpo ao manifesto? Não conseguia ele o suficiente para forrar o colchão, proporcionando-lhe um sono mais leve e arejado?
Aí, o português começou a perceber as vantagens das instituições de crédito: Que dinheiro faz dinheiro. Que atrás de dinheiro dinheiro vem. “Grão a grão enche a galinha o papo.”
Porém, a União Europeia acenou-nos com taxas de juro mais estáveis, baixas, e sólidas, logo, mais atraentes. Aproximava-se a grande estabilidade. Os bancos passaram a conceder créditos ao cidadão comum, por as taxas de juro serem muito baixas. Antes, necessitaria de mais garantias: o crédito passou a ser “à tripa forra”.
Em simultâneo, surgiu o incentivo ao consumo. Para se ser “cidadão do mundo” é preciso ter este e aquele maquinismo, esta e aquela maquineta. “E ele é” rádio, televisão, telemóvel, automóvel e, mais recentemente, até os Iphones… A lógica “Ser ou não ser, eis a questão” aparece substituída, sob uma luz de sedução e requinte por: Ter ou não ter, eis a questão! Consuma, não se consuma! Se não consumir é consumido! Publicidade, muita publicidade, mares, marés e maremotos de publicidade pressionam ao consumo, segredando-nos, indiscretamente: “Todos os teus vizinhos já têm! Por que esperas? Compra, antes que esgote!”
Seduzidos, corrompidos, sucumbidos à agressividade do “marketing”, lá nos vamos arrastando, de crédito em crédito até ao descrédito final. O nosso dinheiro já se foi, em prol de uma vida melhor, de um estilo de vida universal ou, pelo menos, que não seja de pelintras… Orgulhosos, não resistimos ao apelo, respondemos, em primeira linha:
– Sim, eu sou! Sim, eu tenho! Sim, eu compro! Tenho, logo existo! Avé! Este que vai pagar crédito até morrer, saúda-te, ó materialismo!
É, pois, vulgar ouvir que pessoas “bem”, subentenda-se, da classe média-alta, procurem assistência junto de associações humanitárias por incumprimento de prestações do crédito! O que lhes aconteceu? Submissos ao apelo do consumo, sobreendividaram-se e perceberam, vencidos, que “o dinheiro não dá para tudo nem estica”.
Basicamente, habituámo-nos a “andar na corda bamba, sem rede”. Viver o dia de hoje, sem pensar no amanhã é de um grande risco. Daí, o tão necessário orçamento, prevendo os “tais dias de chuva” que tanto nos ensombram dia e noite, agora. Há que refletir ponderadamente (o que significa pensar, pensar, pensar e pensar muito e bem) sobre se preciso realmente disto? E daquilo? E daqueloutro? E se me divorciar? E se perder o emprego? E se os meus filhos …? É necessário colocar muitas reticências em todos os nossos projetos. E ponto final … parágrafo!
Contenção, controlo parecem ser as palavras-chave que devem estar subjacentes a todos os nossos impulsos de consumidores desenfreados. Ou, se consumirmos – moderadamente – ajudemos o nosso compatriota, em primeiro lugar. Num exemplo muito corriqueiro: para que me adianta alimentar bem as minhas galinhas se elas vão pôr os seus ovos no quintal dos outros? Há que favorecer o investimento interno, comprando o que é nacional, porque a galinha de ovos de ouro, afinal, era uma raposa disfarçada e há que pagar a nossa imprudência despesista com altos juros…
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