Já não há crédito fácil

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crédito fácilO crédito já não é de crédito, poder-se-á dizer. O crédito foi, durante muito tempo, considerado como um familiar amigo. Atualmente, “crédito” significa dor de cabeça, desconfiança.

Do outro lado, o credor, geralmente o banco, também já não facilita a vida a quem o procura. “Também já não facilita” não é eufemismo, significa que, na opinião de muitos, houve um extremo liberalismo na atribuição de dinheiro a crédito que os devedores não tinham e que foram incapazes de devolver (com juros, evidentemente).

O consumidor, “com mais olhos que barriga” quis muito, quis tudo, acreditou que poderia viver acima das suas possibilidades, que tudo se consegue pagar, com o salário ao fim do mês (até estar comprometido pelo desemprego), pela vontade, com a ajuda de todos, “grão a grão enche a galinha o papo”; …

A “ti” Maria e o “ti” Manel cultivavam na horta aquilo que punham no prato. Carne, na melhor das hipóteses, era só em dias de festa; “quando as galinhas tinham dentes, isto é, quase nunca. Comprava-se só o estritamente necessário para salvaguardar a vida, a sobrevivência. Agora, é dia sim, dia sim, e ninguém quer abdicar das conquistas feitas. Há que comer bem, há que vestir melhor, há que ter o tal carro (ou carros), as tais comodidades em casa.

Mudámos as nossas referências, trocámos ideias e experiências na nossa “aldeia global”, viver de acordo com outras convicções, com outros parâmetros. E depois? Temos direito a isso! Somos cidadãos do mundo! E os deveres? Temos, quando conseguimos, fazemos, lutamos por isso! E lutámos? Ou começámos a fazer a casa pelo telhado? “O homem sonha, a obra nasce …” E se só sonhámos e não trabalhámos para isso? Poesia na prosa do quotidiano?

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Pois é, antigamente, “a luz ao fim do túnel” era o trabalho, a força motriz das nossas aquisições. Pensar, trabalhar, conseguir. Saltámos a segunda premissa: trabalhar! “O sonho comanda a vida” … se houver um plano de trabalho, uma estratégia para alcançarmos os objectivos! “Tivemos mais olhos que barriga”, na sede do consumismo, e agora “como a cabeça não teve juízo, o corpo é que paga!”

Habituados a um estilo de vida consumista, é difícil “fazer contas à vida”, com o que os nossos avós viviam. Viver sem isto, aquilo e aqueloutro? Nem pensar! Como faço para viver? Claro que há o figurão do crédito pessoal … que é necessário pagar e se paga bem caro, juntando o devido juro que encarece aquele rápido “fiel amigo” facilitador do tal nivelzinho de vida, aquele pedacito de cartão rectangular, singelo e ingénuo que tanto nos “ajuda”, como bom amigo, nas ocasiões difíceis. “É nas horas difíceis que se conhece o amigo”… E lá segue o nosso “status”. “Enquanto dura, faz figura”… A vida é uma montanha russa: ora estamos vertiginosamente no topo, ora vertiginosamente no fundo, à velocidade da compra do anel mais o fio mais os “boxers” com as baleias para defesa do dito cujo mamífero mais o marisco e a ração para o cão …

O crédito pessoal é o falso amigo mais amigo, habitual e inseguro, sem dúvida. Resolvemos um problema para acumular mais uns quantos. O problema agora está resolvido, “logo se vê”, logo se pensa em qualquer coisa, “sem stresse”. “A vida é curta”.

O mais provável é que nos vamos endividando, alegremente iludidos pela fugacidade das coisas materiais. E, depois, talvez, quando a desgraça se abater sobre nós: “Vão-se os anéis, que fiquem os dedos”. Irónico, não? Só agora é que “deitamos mãos à obra”?; “depois de casa assaltada, trancas à porta”? crédito pessoal atrás de crédito pessoal (com juros altíssimos) até ao descalabro…

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Não viver acima das nossas possibilidades é uma máxima sensata. Será que estamos aptos a (re)aprender essa teoria básica, ensinada às crianças, inclusivamente no 1.º ciclo? Como é possível termo-nos esquecido dela? Que deslumbramento nos cegou? “A galinha da vizinha é mais gorda do que a minha” … mas é dela! Por que tomámos a parte pelo todo?

Crédito, nos moldes em que está, nos dias de hoje, é sinónimo de facilitismo, ingerência e ignorância. “Nunca é tarde para aprender!” Reaprendamos a viver com os “ovos das nossas galinhas”!

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