Como funciona a máquina económica

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funcionamento da economiaHá muitas pessoas que gostam de entender como funciona o sistema económico. Eu sou uma delas. É possível ler estudos convincentes sobre o mercado de trabalho, sobre a corrupção ou sobre o crescimento, mas porque não há ninguém a responder à pergunta de como funciona este mundo?

Provavelmente porque há poucas pessoas com capacidade para dar essa resposta e também porque também não a querem dar. Mas há uma pessoa que tem capacidade para falar sobre este tema e que quer fazê-lo: Ray Dalio.

Ray Dalio foi fundador do maior hedge fund mundial e a pessoa que mais dinheiro deu a ganhar aos seus accionistas ao longo da história. É “apenas” um dos melhores estrategas económicos deste planeta. Dalio é (por assim dizer) o rei dos reis dos mercados. Tem também uma paixão sobre o funcionamento da economia e dos mercados: “How the economic machine works”. Como funciona a máquina económica? Depois de ter vários documentos publicados através do Bridgewater para um perfil especializado, Dalio decidiu dar também uma resposta para o grande público. O vídeo, com 30 minutos e com uns desenhos engraçados, pode ser visto de seguida:

A produtividade e a dívida

Então o que determina o crescimento de uma economia? É algo tão óbvio e no entanto tão desvalorizado pelas políticas de visão curta: o conhecimento. São os nossos conhecimentos que determinam a nossa produtividade e qualidade de vida. Pode parecer que existem milhares de factores, mas será o binómio conhecimento-produtividade, entendendo-se isso como duas caras da mesma moeda, que vai determinar até onde podemos ir. Aqui não existem atalhos.

máquina da dívida

Productivity

No entanto, embora o conhecimento e a produtividade determinem os nossos rendimentos ou o crescimento da nossa economia, não explicam as flutuações continuas em forma de crescimento e recessão. O crescimento da produtividade mantém-se relativamente constante ao longo do tempo, ao contrário de uma variável como o PIB, que a longo prazo é determinado pela produtividade e que está em constante sobressalto. Mas porquê? Porque é que ao conhecermos o nosso destino, temos de ir até ele em ziguezague e não em linha recta? E é aqui que está a segunda grande variável que temos de entender, segundo Dalio, de forma a podermos entender o sistema, a dívida!

máquina económica

Credit cycle

As oscilações não se devem à inovação ou ao trabalho duro. Nem sequer à regulação ou às leis, mas sim à dívida. A dívida é que provoca os ciclos económicos. Porquê? Por algo tão simples como o seu próprio funcionamento e pela natureza humana. Ou seja, quando uma pessoa pede um empréstimo, a única coisa que está a fazer é aumentar a sua capacidade de aquisição no presente em detrimento do que vai produzir no futuro, quando irá ter de pagar a sua dívida. Terá mais hoje e menos amanhã. Sejam então bem-vindos ao ciclo económico!

Este ciclo não é bom, nem é mau. Tudo depende se o uso da dívida é produtivo, ou se pelo contrário, não nos ajuda a criar rendimentos para podermos pagar o empréstimo.

Mas há mais. Uma vez que o crédito ajuda-nos a aumentar os nossos gastos e, os nossos gastos são o rendimento de outra pessoa. Por sua vez essa outra pessoa irá poder gastar mais. E assim estabelece-se um círculo virtuoso de mais dívida assumida por A, mais gastos da pessoa A, mais rendimentos da pessoa B, mais dívida assumida por B… e mais crescimento.

Mas também não há razão para celebrar porque os rendimentos não podem crescer mais rápido do que a produtividade a longo prazo. Podemos gastar mais hoje, em contrapartida de gastar menos amanhã, mas não podemos gastar sempre mais. Quando isto acontece existe mais dinheiro no sistema em relação à quantidade produzida, e então, os preços sobem e há inflação. E o que acontece quando há inflação? Os bancos centrais sobem os juros. E o que acontece quando os bancos centrais sobem os juros? O crédito fica mais caro e a população deixa de se endividar, e consequentemente o círculo virtuoso de que falámos anteriormente quebra-se. Mas assim que a inflação recua, os juros baixam e tudo volta a girar.

maquina da divida

Dalio cycle

Dalio chama isto de ciclo curto da dívida. Costuma durar entre 5 a 8 anos e é o que podemos ver no gráfico anterior com um maior número de oscilações. É o mais comum e aquele que estamos mais habituados a ver. Os protagonistas são os bancos centrais porque tentam sempre controlar a inflação (que é o seu sintoma principal) e são os que determinam a facilidade ou dificuldade das pessoas se endividarem. A característica mais importante destes ciclos curtos é que no final dos mesmos a actividade económica e a dívida são maiores do que no início.

Ao fim e ao cabo, os rendimentos continuam a ser elevados, tal como a dívida. Os activos físicos aumentam de valor e os financeiros também. Tudo está bem e o crédito é cada vez maior! Ou dito de outra forma, haverá um ponto em que apesar das oscilações, o endividamento e a actividade económica serão excessivos e insustentáveis, tendo em conta a produtividade. Quando isso acontece, já não estamos perante uma simples “constipação” que se resolve com uma ligeira baixa de juros, mas antes perante uma autêntica “pneumonia” que requer medidas mais fortes. Entramos então no ciclo longo da dívida que ocorre a cada 75-100 anos.

Como detectar quando uma economia está no ponto de viragem? É preciso olhar para os valores de capital e juros, que estarão em valores máximos, mas logo que se note uma queda, os bancos centrais irão baixar as taxas de juro até aos 0% sem conseguirem parar a hemorragia porque ninguém quer endividar-se. O pagamento da dívida começa a ser maior do que o aumento dos rendimentos, pelo que os gastos ressentem-se e, como os gastos de uma pessoa são o rendimento de outra, entramos num círculo destrutivo e aparentemente imparável.

 

Como enfrentar a queda

Num primeiro momento trata-se de solucionar o problema através da austeridade. Mas, ao reduzir os gastos também se reduzem os rendimentos e isso irá fazer com que os rendimentos caiam mais rápido do que a dívida e haverá uma maior carga financeira.

Então haverá restruturações, defaults e similares. E, como uma dívida é o passivo de uma pessoa e o activo de outra, a única coisa que se está a fazer é passar o problema de mãos sem haver uma solução.

De seguida tenta-se ir buscar recursos aos mais ricos, mas não será suficiente. E agora?

Agora entram os bancos centrais na equação através dos famosos resgates! Se na parte mais alta do ciclo longo da dívida o problema era os rendimentos crescerem acima do produzido e criando inflação, o problema na parte baixa é que os rendimentos caem abaixo da produtividade e provocam deflação. A chave está em aumentar os rendimentos de forma que se equilibrem com a produção, não sofrendo nem inflação, nem deflação. E como? Se os bancos centrais apenas têm poder de intervir nos activos financeiros, também têm possibilidade de financiar o défice público que assim chega à economia real aumentando os rendimentos. É algo também conhecido como imprimir.

Na opinião de Dalio tem de haver um equilíbrio entre as quatro forças anteriores, especialmente entre as deflacionarias (austeridade e defaults) e as inflacionarias (imprimir), havendo equilíbrio quando os rendimentos do país crescem acima dos juros da dívida e quando também não há inflação. Se o estímulo dos bancos centrais for inferior ao necessário, haverá tendências deflacionarias e a queda será dolorosa. Por outro lado, se os bancos centrais exageram e criam mais dinheiro do que o destruído pela queda, haverá inflação. Quando o equilíbrio for conseguido iremos ter o “beautiful deleveraging”.

 

Conclusão

Em resumo, Dalio recomenda ao mundo o seguinte:

  1. Não se deve deixar que a dívida aumente mais do que os rendimentos, porque aumentará a nossa carga financeira.
  2. Não de deve deixar que os rendimentos aumentem mais do que a produtividade porque deixaremos de ser competitivos.
  3. Deve-se fazer tudo o que for possível para aumentar a produtividade porque no final é o mais importante!

Ou seja, relacionando os conselhos 1 e 2, está-nos a dizer que a dívida não pode aumentar mais do que a nossa produtividade permite. Ou, o que é a mesma coisa, que quanto mais for parecido o ciclo da dívida com o crescimento da produtividade, mais sustentável será. Podíamos interpretar isto como um argumento contra as divisas “fiat” que aumentam os desvios em relação à linha da produtividade, mas Dalio é a favor do dinheiro “fiat”, já que na sua opinião é o único que permite margem de manobra nestas situações. Com efeito, é nestes momentos que as divisas “no fiat” desaparecem.

Apesar de tudo, creio que a maior questão não está em saber se as teorias de Dalio estão correctas ou não. Ao fim e ao cabo, existe muito debate sobre as diversas teorias do ciclo existentes, estudos sobre o crescimento a longo prazo, sobre a dívida, etc. Mas a grande pergunta é: já que a produtividade é o realmente importante a longo prazo, será que a dívida consegue aumentar a produtividade? Pode parecer uma loucura, mas a dívida não faz mais do que trazer-nos o futuro até ao presente. E se for tudo bem feito, fará com que o conhecimento de amanhã seja descoberto hoje.

O que aconteceria se não fossem criadas novas empresas por falta de financiamento? O que aconteceria se não se desenvolvesse um novo produto revolucionário por falta de recursos? Ou se não fosse feita uma nova descoberta na medicina que poderia salvar milhões de vidas? Apenas quero dizer que a dívida se for bem usada, apesar das más conotações que tem, é imprescindível para o desenvolvimento da sociedade.

O problema não é a dívida, somos nós, é a nossa própria natureza. É por isso que precisamos de controlo e de limites, mas também precisamos de espaço para a criatividade e para mudar o mundo.

Sejam vocês mesmos a julgar, vejam bem o vídeo de Dalio. É o melhor que vejo há muito tempo: simples, didáctico, informativo e muito educativo.

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